sábado, 31 de maio de 2008

Pequeno texto #2

Em pequena Madalena costumava lavar peras e enxugá-las com um pano de loiça para que o seu pai as levasse para o trabalho à noite, de guarda nocturno. Aos 34 anos, ao lavar peras para as colocar dentro de um saco de plástico para as guardar no frigorifico, à mente de Madalena veio a lembrança do seu pai saindo de casa um pouco antes das 22h para só voltar daí a mais de 8 horas. Recordou que o seu pai não gostava nada de não passar a noite em casa e ter de dormir pela manhã dentro. Mas as possibilidades de trabalho não eram muitas e quando ficou desempregado aos 35 anos quando a fábrica onde trabalhava fechou portas, não desanimou, mostrou de maneira muito firme o homem de trabalho que sempre tinha sido. Procurou soluções, equacionou hipóteses, anteviu possibilidades e não disse que não àquilo de que não gostava. Ser guarda noscturno permitiu-lhe providenciar o sustento para a mulher e as duas filhas que amava sem reservas e em quem pensava de cada vez que saía de casa para trabalhar, até àquela noite em que, a 50 metros da sua casa, eram 6 e meia da manhã, após uma noite de trabalho, ao atravessar a estrada, a sua vida foi colhida abruptamente por um veículo conduzido por um homem bêbado que circulava a 110 km/hora. Aos 42 anos o pai de Madalena deixou na mulher e filhas a certeza de que não poderia ter tido melhor marido e pai.

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